O Brasil foi alvo de mais de 103 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos em 2022, um aumento de 16% com relação a 2021. Na América Latina, o país fica atrás apenas do México, que teve 187 bilhões de investidas no mesmo período. Somos também o quinto maior país no ranking de incidentes de segurança. Ao falarmos de investimentos emprevenção para que os crimes aconteçam, estamos apenas na 18ª posição.
Os dados trazidos no 3º Congresso Nacional Unimed de Gestão de Saúde evidenciam a importância do debate sobre a proteção de dados e da segurança da informação, presentes em duas salas de discussões com especialistas do setor.
“É inegável que a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) trouxe mais segurança jurídica, mas traz também um efeito colateral, que é a precificação de um ativo em milhões de reais, o que atrai a atenção dos cibercriminosos para esse tipo de informação”, destacou o gerente de Proteção e Privacidade de Dados da Unimed do Brasil, Odilon de Oliveira, ressaltando a visibilidade do setor de saúde por conta de prontuários e informações de pacientes.
Para João Lucas Melo Brasio, uma das principais referências mundiais em cybersecurity e palestrante do Congresso, estamos em um campo de batalha constante no qual executivos de todo o mundo enxergam os ataques cibernéticos como o principal risco para os seus negócios. De acordo com o World Economic Forum (WEF), os prejuízos com o cibercrime podem chegar a US$ 8 trilhões em 2023. “Há camadas que protegem quem quer cometer atos ilícitos, pois nem tudo o que é feito na internet é visto. O anonimato e a falta de uma legislação mais específica para temas que são recentes incentivam a sensação de impunidade”, disse.
Colaborador como agente e tecnologia
O palestrante levou a público exemplos de tentativas de ataques reais, incluindo vazamento de dados de pacientes de clínicas e hospitais e informações sigilosas de CEOs e autoridades de estado. Para ele, a engenharia social é um dos principais riscos. “Basta uma porta aberta por meio de um clique indesejado em um e-mail para causarem um grande dano à corporação”, ressaltou, destacando ações preventivas e orientações aos colaboradores como estratégias a serem tomadas pelas empresas.
A opinião foi compartilhada durante o debate pelo especialista na resolução de incidentes críticos de segurança, Jefferson Macedo. “Não é apenas sobre regulação, o comprometimento cibernético traz vidas expostas, prejuízos financeiros e danos para a reputação da empresa. Entre as melhores práticas para prevenir incidentes estão a condução de avaliações de riscos regulares, uso e atualização constante de tecnologias, treinamento aos colaboradores, construção de equipes de cibersegurança e o estabelecimento de um plano de resposta a incidentes como ações primordiais”, disse.
Proteção de Dados
O 3º Congresso Nacional Unimed de Gestão de Saúde trouxe ainda discussões sobre o ambiente regulatório e decisões recentes da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), que visam regulamentar, implementar e fiscalizar o cumprimento da LGPD no Brasil.
Os exemplos foram trazidos pelo advogado e professor em Proteção de Dados, Fabricio da Mota, indicado pelo Senado Federal para o Conselho Nacional da Proteção de Dados Pessoais e da Privacidade. Ele prevê uma ação mais intensa da ANPD com as primeiras condenações, contextualizando a existência hoje de oito processos em andamento, sendo sete na esfera pública e que servirão como base para as empresas tomarem decisões.
“O Brasil ganhou escala rapidamente. Partimos de algo generalista para a garantia de direitos fundamentais com a LGPD. Ainda que seja algo recente e exija maturidade, a lei permite nos antecipar, com elementos suficientes como normas, entendimentos e comunicados de incidentes que dão base às empresas para tomarem ações previamente”, disse.
A advogada especializada na implantação de Programas de Compliance Anticorrupção, de Prevenção a Lavagem de Dinheiro e de Proteção de Dados, Camilla Chizzotti, trouxe o tema para o contexto das empresas privadas, avaliando a maturidade das organizações para o cumprimento da lei e o seu desdobramento para prestadores de serviços.
“É um ganho quando observamos a atuação efetiva do DPO e um programa de governança e seguridade no qual percebemos a preocupação com a ética e com a proteção dos titulares como algo natural, com uma postura colaborativa. Isso significa um processo de maturidade, de mudança de cultura e é o caminho mais efetivo para que as empresas não enfrentem problemas”, disse. |