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As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul no último mês, afetando mais de 2,3 milhões de pessoas em 471 municípios, são a evidência mais recente e próxima dos brasileiros. A emergência climática e os danos ambientais já acarretam uma sobrecarga de adoecimento e mortes, impactando os sistemas de saúde ao redor do planeta. O setor precisa apropriar-se dessa agenda e desenvolver estratégias de adaptação e resiliência – concluiu uma das mesas mais prestigiadas do 4º Fórum Estratégico Unimed, encerrando a manhã da quinta-feira, 30 de maio.
O mais respeitado climatologista brasileiro e reconhecido internacionalmente, o professor Carlos Nobre mostrou a relação entre o aquecimento global, o aumento da temperatura dos oceanos, a ocorrência de eventos climáticos extremos, como chuvas torrenciais e suas consequências, ondas de calor e de frio, com a saúde. Além dos efeitos diretos e indiretos das mudanças climáticas, também é preciso considerar os fatores sociais. Os impactos envolvem a saúde mental, fome e deficiências nutricionais, alergias, doenças infecciosas, cardiovasculares e respiratórias, ferimentos e até intoxicações e envenenamentos.
“A crise climática é a maior ameaça à saúde que a humanidade já enfrentou”, afirma Nobre. A Organização Mundial de Saúde (OMS) prevê, entre 2030 e 2050, a ocorrência de 250 mil mortes adicionais a cada ano, devido a estresse térmico, desnutrição e doenças transmitidas por vetores, como dengue e malária. “Precisamos, urgentemente, discutir a inserção da saúde em todas as políticas públicas. Sustentabilidade, diálogo e eficiência são os desafios do setor”, defende.
O cientista adverte, especialmente, para o efeito silencioso do calor prolongado (quando as temperaturas se mantêm mais de 3°C acima da média histórica do período), ameaçando mais idosos acima de 65 anos, sobretudo mulheres, e crianças. Estimam-se 62 mil mortes na Europa no verão de 2022 e pelo menos 48 mil mortes excedentes no Brasil, entre 2001 e 2018. Por aqui, as disparidades de idade, gênero, raça e socioeconômicas afetam a vulnerabilidade ao calor, vitimando sobretudo mulheres, pessoas idosas, negras e menos escolarizadas.
Outros riscos ambientais decorrem da poluição do ar, associada a pelo menos 7 milhões de mortes prematuras por ano, segundo a OMS. Também entram no rol as epidemias e pandemias ocasionadas pelo desequilíbrio de ecossistemas e a redução da biodiversidade, como as arboviroses; as infecções e as condições clínicas agravadas por grandes incêndios florestais, que alcançam populações a centenas de quilômetros de distância; e o estresse térmico associado ao desmatamento.
Segundo Nobre, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) emite alertas sobre o aquecimento global desde 1990, demonstrando a influência das emissões de gases de efeito estufa decorrentes da atividade humana. Os últimos dez anos registram sucessivos recordes de temperatura e, até o momento, 2023 foi o mais quente já registrado no planeta em 125 mil anos – marco que vem sendo superado, mês a mês, em 2024.
Mantido o cenário atual de altas emissões, até 2070, a maior parte do território brasileiro registrará temperaturas anômalas até 4°C acima da média histórica, com mais dias acima dos 40°C, menos chuvas no Nordeste e na Amazônia, sob risco de “savanização”, e mais chuvas no Sul, com enchentes e deslizamentos de encostas. “Temos uma emergência climática que poderá tornar inabitáveis grandes regiões do planeta ao final deste século, em razão do estresse térmico e de condições climáticas mortais”, adverte o especialista, apontando um mapa-múndi onde quase todo o Brasil está colorido na escala de média a elevada severidade.
O papel dos sistemas de saúde
Um dos responsáveis pela implantação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Carlos Nobre cita mapeamento realizado em 2018, em 825 municípios brasileiros considerados críticos. Nesses locais, 8,3 milhões de pessoas viviam em áreas de risco, o equivalente a 9% de sua população total. A atualização do relatório deve elevar os números, diz.
“A tragédia no Rio Grande do Sul serve de alerta quanto à intensidade e à frequência de eventos extremos no futuro. Temos de aperfeiçoar os sistemas de previsão e alertas de desastres e proteger as populações em áreas de risco e todas as populações vulneráveis”, recomenda. “O Brasil deve tornar-se ainda mais ambicioso nas metas ambientais, acelerar políticas e práticas de adaptação e aumento da resiliência em todos os setores, mantendo o apoio à geração de conhecimento científico”, conclui.
Médico infectologista e secretário de Estado da Saúde de São Paulo entre 2020 e 2022, em meio à pandemia de Covid-19, Jean Gorinchteyn, defende que o sistema de saúde tenha um planejamento estratégico para requalificar a assistência, com três níveis de ação. “O primeiro fator é previsibilidade para garantir a estruturação da rede assistencial”, indica. O segundo nível, explica o especialista, são as ações preemptivas [antecipatórias] para despolarizar os fluxos regionais.
No terceiro nível, estão as ações circunstanciais, secundárias ao evento, que incluem demandas imediatas de resgate, estruturação de cuidados de média complexidade, como pequenas cirurgias e atendimentos obstétricos, até a garantia de continuidade assistencial. Neste tema, Gorinchteyn cita a manutenção da rede de atenção primária e a recuperação do sistema de urgência e emergência no Rio Grande do Sul. “É preciso mais do que hospitais de campanha para nos prepararmos diante da sobrecarga assistencial”, avalia.
No momento, a preocupação é o aumento das doenças infecciosas, como diarreias, hepatite A e as transmitidas por insetos e roedores, como a leptospirose, assim como as infecções respiratórias agravadas pelo frio e pela concentração de pessoas em abrigos. Também requerem atenção a distribuição de medicamentos a pacientes crônicos (muitos deles com as prescrições perdidas em meio ao desastre) e o seguimento do tratamento de pacientes oncológicos, renais crônicos e de saúde mental.
Diante de tantas repercussões, o ex-secretário afirma que as questões climáticas devem entrar, em definitivo, na agenda dos gestores dos sistemas de saúde. E reitera que é preciso compaixão para acolher as pessoas afetadas.
Impactos no Sistema Unimed Gaúcho
O painel teve moderação do diretor de Gestão de Saúde da Unimed do Brasil, Marcos de Almeida Cunha. As discussões foram abertas pelo presidente da Unimed Federação Rio Grande Sul, Nilson Luiz May, ao lado do executivo Geison Treméa, coordenador do comitê de crise, apresentando a situação do Sistema Unimed no estado. Dos 14 mil colaboradores, mais de 650 foram diretamente atingidos pelas cheias – dois terços deles, profissionais da área assistencial que continuam em atividade. Cerca de 380 colegas perderam tudo o que tinham e outros 20 tiveram, ainda, as casas destruídas pela correnteza.
Um total de 109 prestadores – dos quais 66 consultórios e clínicas e oito hospitais – foi afetado, metade deles na região metropolitana de Porto Alegre. Para mitigar o impacto operacional, as empresas do Sistema Unimed Gaúcho atuam em rede para remoção de pacientes, ampliação do acesso à telemedicina, distribuição de insumos e medicamentos e, por meio de parcerias, para mapear a disponibilidade de leitos e processar exames laboratoriais. Também foram feitos repasses financeiros em apoio a prestadores e colaboradores.
O papel social da Unimed também foi evidenciado. Colaboradores de todas as Singulares do estado estão mobilizados em voluntariado. As campanhas realizadas pelo Instituto Unimed RS já viabilizaram a doação de 7,2 toneladas de alimentos, 173 mil litros de água mineral, mais de 2,3 mil colchões e 11 mil cobertores, além de roupas, medicamentos, produtos de higiene pessoal e materiais de limpeza. E as contribuições ainda são necessárias.
Para tanto, devem ser utilizadas duas chaves Pix:
CNPJ 08.969.474/0001-58
Nessa opção, os recursos serão destinados conforme prioridades estabelecidas pela Defesa Civil do Estado.
sos.rs@institutounimedrs.org.br
Nessa opção, o apoio é exclusivo aos colaboradores do Sistema Unimed que também foram afetados.
Passada a fase de resgates emergenciais, uma das preocupações é com a recuperação da atividade econômica, com possíveis impactos na saúde suplementar. O Sistema Unimed atende a 1,6 milhão de beneficiários no estado, incluindo aqueles em Intercâmbio Nacional. Os principais polos industriais estão nas regiões mais severamente atingidas, na Grande Porto Alegre, nos vales dos rios Sinos, Taquari e Pardo, além da região da Serra. A estimativa é de que mais de 150 mil clientes da Unimed Porto Alegre tenham sido impactados. Em todo o estado, 28% da carteira empresarial são contratos com micro e pequenas empresas, somando mais de 250 mil vidas nas Singulares diretamente atingidas. “Os impactos ultrapassam fronteiras”, resume Treméa.

Ambição e empoderamento
“Os custos econômicos e sociais com o aumento dos eventos extremos são muito altos e os impactos, substanciais e generalizados. Se implementar metas ambiciosas, o Brasil pode tornar-se o primeiro país de grandes emissões a atingir a meta Net Zero antes de 2050”, defende Carlos Nobre. “As novas gerações devem assumir a liderança na busca de trajetórias de sustentabilidade para o planeta, com ênfase em justiça social e climática, principalmente pelo empoderamento de jovens e mulheres”.
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