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Mudanças climáticas e eventos extremos afetam, igualmente, a saúde dos negócios e, dentre eles, a indústria de proteção contra riscos, como a saúde suplementar e os seguros. Além de apoiar a mitigação de desastres, o setor tem papel crucial em prevenção e adaptação. Desafio inclui engajar seus públicos na agenda da sustentabilidade e implementar planos efetivos de resposta a crises, para salvar vidas e estruturas essenciais.
 
 
 
 

Na cena de grandes desastres, uma pergunta é recorrente: “Onde foi que nós erramos?”. A constatação vem da experiência do deputado federal Pedro Aihara (PRD-MG), especialista em gestão de riscos, oficial e porta-voz do Corpo de Bombeiros Militares de Minas Gerais nas operações de resgate após o rompimento da barragem de mineração na cidade de Brumadinho.

O deputado participou de um painel do Fórum Estratégico Unimed dedicado à preparação das organizações para a resposta a emergências, com mediação do vice-presidente da Unimed do Brasil, Emilson Ferreira Lorca. Segundo o parlamentar, grandes acidentes tendem a ser causados por uma sucessão de “pequenas” falhas, que se avolumam ao longo de uma cadeia de verificação e decisão. “É como um efeito dominó, que interrompemos ao entender que o problema também é nosso e passar a agir de acordo com essa compreensão”.

A vivência como bombeiro e a especialização cursada no Japão formaram a convicção da importância de se desenvolver uma cultura de prevenção no país. Em seu primeiro mandato, o deputado participou, há um ano, da criação da Frente Parlamentar de Gestão de Riscos e Desastres e Cooperação Humanitária – e defende que o tema esteja na agenda dos gestores públicos e privados. “É preciso se perguntar: qual pequena atividade tem sido negligenciada em seu setor ou empresa, que reduziria a exposição ao risco?”.

Outro desafio é manter a percepção dos riscos elevada no longo prazo – e não apenas sob o impacto de grandes tragédias. “Uma de nossas regras de ouro diz que a disciplina operacional salva vidas”, afirma Pedro Aihara, destacando que bons planos de prevenção e ação requerem atualização e treinamentos efetivos de todos os envolvidos, para que cada um saiba como agir diante de uma emergência. “Nosso trabalho só funciona em equipe”.

Lacunas na identificação de riscos e na proteção

Reconhecer que o mundo se tornou mais instável e imprevisível e que tudo pode mudar a qualquer momento é o primeiro passo para um mapeamento de riscos mais assertivo. É o que também defende a advogada Ana Paula de Almeida Santos, diretora de Sustentabilidade e Relações de Consumo da Confederação Nacional das Seguradoras (CNSeg). Além dos riscos climáticos e dos desastres naturais, a executiva cita riscos cibernéticos, grandes acidentes e conflitos armados.

A executiva adverte para um gap de proteção a esses riscos emergentes em todo o mundo. Apenas em 2023, estimam-se em US$380 bilhões as perdas decorrentes de eventos climáticos extremos. Desse total, apenas 31% estavam segurados, sendo dois terços desse montante nos Estados Unidos. No Brasil, estudo da Confederação Nacional dos Municípios mostra que 93% deles registraram algum desastre natural, levando a emergência ou calamidade pública, entre 2013 e 2022. Mais de 4,2 milhões de pessoas precisaram deixar suas casas, e os prejuízos ultrapassaram R$26 bilhões – 62% das perdas financeiras se concentram no Nordeste e 70%, a partir de 2020, evidenciando eventos mais recorrentes e severos.

Segundo Ana Paula, uma estimativa inicial, ainda com o evento em curso, aponta para perdas de R$11 bilhões no Rio Grande do Sul, com a expectativa pelo pagamento de R$1,7 bilhão em indenizações por bens materiais. A tragédia já é o maior evento enfrentado pelas seguradoras no Brasil. “O desafio é mensurar a perda material que ainda está por vir, afetando a capacidade dos negócios em gerar empregos e se proteger [por meio de seguros patrimoniais, de vida e de saúde, por exemplo]”, explica.

De forma propositiva, o setor de seguros tem atuação transversal nas atividades econômicas e contribui não apenas para mitigar impactos, permitindo que pessoas e empresas possam se reerguer de um desastre, como também deve exercer papel crucial na geração de resiliência e redução das desigualdades. Ana Paula cita o financiamento de inovações e soluções sustentáveis, a indução de agendas empresariais pautadas em sustentabilidade, o desenho de produtos que promovam a transição à economia de baixo carbono e a disponibilização do conhecimento acumulado pelo setor, como inteligência climática, ciência atuarial e de dados, capacidade de gestão de riscos. No caso dos sistemas de saúde, ela reforça a necessidade de mais dados e de se manterem sistemas de vigilância no longo prazo, para antecipar riscos e preparar a sociedade.

Como podemos engajar nossos públicos

“Acabou, de vez, a ideia comum de que desastres naturais eram ‘coisa de Deus’. Em quase todos eles, há algum fator antropogênico”, afirma a professora Angélica Carlini, pós-doutora em Direito Constitucional e consultora nas áreas de saúde suplementar, direito do seguro e responsabilidade civil. Dessa forma, é papel das empresas se engajarem na agenda do desenvolvimento sustentável a partir dos pilares ESG – ambiental, social e de governança, na sigla em inglês.

As cooperativas seriam parte ativa desse compromisso com o crescimento sustentado e inclusivo. “O desenvolvimento sustentável diz que, para gerar lucro, não se pode destruir ninguém, não se pode deixar ninguém para trás”, cita em referência à Assembleia Geral das Nações Unidas em 2015. “Há uma identificação clara com os princípios e valores do cooperativismo, que incluem o interesse pela comunidade, a ajuda mútua, a responsabilidade e a solidariedade”.

Angélica sugere uma agenda de engajamento para o Sistema Unimed, que começa por incorporar os temas de sustentabilidade, inclusão e governança como pressupostos de toda ação. Ela cita a prevenção em primeiro plano, o mapeamento de riscos localmente e a constituição de comitês de crise integrados regionalmente, a organização de fundos para desastres e a formação de estoques estratégicos.

Outro ponto importante é o diálogo com o poder público, desde a ação educativa junto à sociedade e a elaboração de planos integrados de prevenção e ação, até a resposta conjunta em caso de crise. A professora também defende a mobilização dos públicos em projetos ambientais, de economia circular e a promoção de eventos culturais para difundir o propósito da sustentabilidade. “Trata-se de colocar em prática o grande capital social da Unimed. Precisamos ensinar as pessoas a cuidar do bem-estar das outras”, conclui, citando o cientista político e teórico da cooperação Robert Axelrod.